MUSEU KARANDASH

O Museu no balanço das águas - Coleção Karandash

 

REFLEXÕES SOBRE UM BARCO-MUSEU: PROJETO MUSEU NO BALANÇO DAS ÁGUAS

 

            Roberto Sarmento Lima

 

            A ideia de expor trabalhos da área das artes visuais e promover oficinas de arte, fazendo interagir profissionais com pessoas desejosas de expressão artística em um barco itinerante, pode estar relacionada com a ideia, bem antiga, da viagem por águas profundas, como a que fez Ulisses, na Odisseia, de Homero, ou, mais recentemente, como a que se vê no “Conto da ilha desconhecida”, de José Saramago. Embora esses textos não falem exatamente disso — o aproveitamento de uma experiência artística em um barco ou navio —, o que há de comum entre a proposta de desenvolver atividades de pintura, gravura, desenho e fotografia (ensinando, divertindo, levando à participação) e as obras literárias há pouco apontadas é a possibilidade de, pela viagem, ser possível também propiciar a reflexão sobre a arte no mundo, que é um fazer efetivo, e não um sopro individual de inspiração, como há muito tempo se pensou. O projeto Museu no Balanço das Águas, sob a organização e orientação do museu coleção Karandash, através de seus representantes, os artistas plásticos Dalton Costa  e Maria Amélia Vieira, guarda essa sintonia com a aventura, o prazer e a busca do conhecimento do novo (tema tanto da Odisseia quanto do conto contemporâneo de Saramago, ambos dialogando com a construção da essencialidade humana, o fazer-se enquanto se procura e busca um conceito de arte.

                A vantagem de uma experiência como essa, nada convencional, é bom insistir nisso — por fugir da sala e do ateliê, das portas fechadas e da reclusão, voluntária embora, em um espaço próprio e particular, quase sacralizado, fato em que ainda se pensa, mesmo nos dias de hoje —, é passar uma concepção, cada vez mais atual, de interação e desmistificação desse tipo de atividade. É poder encontrar, nos mais variados tipos de pessoas, de comunidades que por princípio não tiveram acesso ao museu, sentidos e expectativas que, no fim, podem ser aproveitados artisticamente. É a arte que se pratica indiferentemente — sem preconceitos ou elitismos de classe — na rua, no palco, na praça, nas margens do rio (no caso, o Rio São Francisco, não sendo à toa que tenha sido batizado Rio da Unidade Nacional), enfim, nos mais inesperados recantos de um Brasil rural, posto à margem dos grandes centros. Por chamar atenção para o próprio fenômeno, por tirá-lo dos lugares consagrados e por envolver o maior número de pessoas, por definição alheias à visão que a arte traz, o projeto consegue realizar o que o crítico Antonio Candido chamou, em um ensaio seu, de “direito”. Direito à arte, à capacidade de entrar em um mundo fabulado, seja pelo chiste, pela anedota, pela canção popular, até chegar às formas mais complexas de elaboração ficcional e artística. Chegou a dizer o crítico, acertadamente, segundo penso, que a arte é um fato de equilíbrio social, indispensável, portanto, ao homem, como são indispensáveis a habitação ou a alimentação. Esse é também, pois, um direito a que o homem tem, além do direito ao acesso a bens incompressíveis, como a casa, o alimento, a roupa, o atendimento médico e a escola. Comida, diversão e arte, sentenciaram os Titãs, grupo musical que, entre nós, se diferenciou, dos anos de 1980 para cá, por ser talvez o único, neste país, salvo engano, a refletir metalinguisticamente, no interior de suas composições, sobre a própria condição da arte na realidade contemporânea.

                A iniciativa de trazer a arte para onde geralmente ela não está, ao menos em sua versão erudito-popular — sim, porque o que o projeto prevê e faz é a união do estudo com a experiência, numa unidade que foi e é aquilo que foi idealizado pelo proponente —, sem estabelecer divisões e separatismos que só estragam e diminuem se tivesse sido o caso, a importância da proposta. Mas o que se presencia é justamente o seu contrário: atendendo a uma prerrogativa contemporânea, a arte, tal como o projeto dos artistas Maria Amélia Vieira e Dalton Costa, em várias edições, com participação de artistas e instituições como:  Rubem Grilo, Adriana Maciel, Juarez Cavalcanti, Zezão, Pedro Octávio Brandão, Anima Mundi  e Celso Brandão, prevê, se faz com matéria bruta, com pessoas ainda não educadas nesse campo de atuação e prestes também a receber essa educação, com recontextualização de materiais e, finalmente, com o apagamento da linha limítrofe entre o popular e o erudito, por meio de evidentes mesclas de estilos e atitudes artísticas. Dadas essas características fundamentais, comprovadamente testadas e realizadas, convenho que o projeto deva se prolongar e continuar o trabalho de arte-educação e de contínuo reexame de seus fundamentos e objetivos.