O HOMEM E O PÁSSARO


Amanhece na Galeria Karandash. Ali, convivendo com buzinas e barulhos urbanos, encontramos o imaginário criativo de centenas de artistas do interior do Nordeste brasileiro. Os 600m de área construída parece pequeno para abrigar tantas obras. Por um instante, meus olhos buscam o que ainda não foi revelado e percebo que nestes 28 anos, todos os dias, descubro ótimas novidades e novos estímulos, exercitando assim a energia necessária para cumprir o meu destino de artista e colecionadora.

Hoje os meus olhos pararam em três obras incríveis que dialogam entre si. O “Parampalho” do pernambucano Jose Francisco Cunha, o “Flamingo com seu guardião” do alagoano de Lagoa da Canoa Antonio de Dedé e o “Homem pássaro” do Vieira da Ilha do Ferro. Percebe-se de imediato a relação estreita entre eles a partir do tema: O Homem e o Pássaro. Como sabemos, os pássaros fazem parte das lendas, mitos e estórias do universo popular. O homem e o pássaro tem um papel simbólico- sugere sempre o imaterial, o etéreo, o desejo louco de voar rumo ao infinito. O que vejo aqui, são seres híbridos, vindos certamente de regiões encantadas de universos desconhecidos. Jose Francisco Cunha faz esculturas únicas que remetem a ludicidade e imaginação compulsiva. Sua habilidade em manipular e associar materiais como a madeira, vidro, arame, espelho, garrafas pet, lâmpadas, ultrapassa e muito o universo artesanal.

Antonio de Dedé trabalha com a madeira, permitindo a construção de vários temas, apresentando resultados com enorme força criativa. Grandes bichos , sereias, seres esculpidos, com cores, expressões vibrantes que surpreendem. Em Vieira, encontramos uma produção também em madeira: Barcos, bichos, homem com corpo de pássaro, seres mitológicos como homens e mulheres carregando em suas cabeças pássaros da região sertaneja, Seus personagens, na maioria das vezes carregam próximo ao peito, medalhinhas ou broches feitos com miçangas de bijuterias quebradas e sem uso. Além desse rico imaginário, o artista desenvolve peças utilitárias- mobiliário- cadeiras de balanço, namoradeiras, bancos que trazem pinturas, cenas do sertão ou temas como o amor e a liberdade. Muitas vezes me pergunto: Onde estão as fontes conscientes desses artistas já que nunca tiveram a oportunidade de frequentar Escolas, visitar Museus ou conhecer a história da Arte? Nada disso tem importância. Esses artistas simplesmente vivem o dia a dia de suas existências e seus processos criativos são alimentados por inspirações inconscientes. Conheceram o oficio ainda crianças ou muito jovens, estimulados apenas pelo desejo de Existir. Suas fontes são da Escultura involuntária, onde todas as audácias são permitidas. Para mim, nada é mais gratificante do que a liberdade de criar. 

Maria Amelia Vieira
Artista plástica e colecionadora.

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